O Remédio Para a Minha Saudade

 Hoje, uma simples ida ao mercado se tornou um daqueles momentos pesados que a gente leva para casa sem conseguir explicar. Eu estava ali, vivendo mais um dia comum, quando, por apenas um segundo, nossos olhares se cruzaram.

Um segundo.

Foi o suficiente para tudo parar dentro de mim.

Naquele instante, um filme inteiro passou pela minha cabeça. Nossa história, nossos momentos, nossas conversas, os lugares, os abraços, os planos, as risadas... tudo aquilo que um dia foi presente voltou de uma vez, como se o tempo tivesse decidido me lembrar de tudo aquilo que eu ainda não consegui esquecer.

Você estava ali. Na minha frente.

E eu não podia fazer absolutamente nada.

Talvez para você tenha sido apenas mais um momento. Talvez eu tenha sido somente mais um desconhecido que você encontrou no mercado. Talvez você tenha seguido seu caminho sem imaginar o que aquele simples olhar provocou dentro de mim.

Mas eu senti.

Senti uma saudade que, naquele segundo, pareceu infinita.

E doeu.

O mais estranho é que ninguém percebeu. Por fora, minha postura permaneceu a mesma. Continuei andando, continuei vivendo, continuei parecendo bem. Meu humor não mudou. Não deixei transparecer absolutamente nada.

Se alguém tivesse olhado para mim naquele momento, provavelmente teria pensado que aquilo não significou nada.

Mas por dentro...

Por dentro eu estava revivendo uma história inteira.

E agora estou aqui, no início da noite, sentado na sacada, com o notebook no colo, tentando transformar em palavras aquilo que meu coração não consegue simplesmente calar.

E enquanto escrevo, um pensamento insiste em voltar:

Bem que os deuses poderiam tocar o teu coração.

Bem que, de repente, alguém poderia bater na porta.

E quando eu fosse atender...

Fosse você.

Sem aviso. Sem explicações. Sem passado. Sem orgulho. Apenas você parada diante de mim, como se a vida tivesse decidido, por algum milagre, devolver aquilo que um dia levou.

Talvez seja apenas uma fantasia. Talvez seja o desejo de alguém que ainda ama demais e que, mesmo sabendo que precisa seguir em frente, continua imaginando como seria se a história tivesse outro capítulo.

E, como se a noite já não estivesse difícil o suficiente, a Alexa começou a tocar “Efeitos”, do Cristiano Araújo.

E algumas músicas parecem ter o dom cruel de encontrar exatamente a ferida que a gente tenta esconder.

Aquela música me fez lembrar de tudo.

Dos efeitos que você deixou em mim.

Das lembranças que, ao invés de desaparecerem com o tempo, parecem encontrar novas maneiras de voltar.

Porque essa é a verdade que eu tento esconder até de mim mesmo: eu ainda estou travando uma batalha para te esquecer.

Eu sigo vivendo. Trabalho, converso, sorrio, faço planos, tento ocupar a cabeça. Por fora, parece que tudo está bem.

Mas basta um olhar.

Uma música.

Um lugar.

Um cheiro.

Uma lembrança.

E tudo volta.

E então eu me pergunto:

Como vou me curar dessa saudade, se o remédio para ela é você?

Como eu vou aprender a não sentir falta, se tudo aquilo que meu coração deseja ainda tem o seu nome?

Como vou convencer a minha memória a esquecer, se uma parte de mim ainda guarda cada detalhe?

Talvez esse seja o meu maior conflito.

Minha razão sabe que preciso seguir.

Meu coração ainda espera.

E eu fico preso no meio dos dois, tentando encontrar uma maneira de continuar sem precisar fingir que deixei de sentir.

Porque eu não deixei.

Eu ainda sinto.

Ainda sinto sua falta.

Ainda lembro.

Ainda imagino.

Ainda existe uma parte de mim que, mesmo sabendo que talvez você nunca volte, continua esperando aquela batida na porta.

Talvez você nunca saiba o que aquele segundo no mercado significou para mim.

Talvez nunca saiba que, enquanto para você aquele olhar pode ter sido apenas um instante qualquer, para mim ele foi suficiente para despertar tudo aquilo que eu passei tanto tempo tentando adormecer.

E talvez seja isso que mais doa.

Saber que alguém pode continuar sendo o amor da sua vida mesmo depois de deixar de fazer parte dela.

Eu queria ter conseguido te esquecer.

Queria que a saudade tivesse prazo de validade.

Queria que meu coração aprendesse a olhar para você sem sentir vontade de voltar no tempo.

Mas hoje, sentado aqui, olhando para a noite e escrevendo tudo aquilo que não tenho coragem de dizer, só consigo admitir uma coisa:

Eu ainda amo você.

E talvez seja justamente por isso que dói tanto.

Porque como alguém pode se curar de uma saudade quando, no fundo, tudo o que deseja é justamente aquilo que sente falta?

Como vou me curar dessa saudade, se o remédio para ela é você?

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