164 Dias: O Tempo Não Me Ensinou a Esquecer

Cento e sessenta e quatro dias.

Escrevo esse número e ele parece pequeno sobre o papel. Tão pequeno que quase engana. Mas eu sei o peso que cada um desses dias carregou. Sei porque fui eu quem acordou todas as manhãs sentindo a sua ausência antes mesmo de abrir os olhos. Fui eu quem precisou aprender a sobreviver quando a única coisa que eu queria era voltar para um lugar que já não existia mais.

O mundo continuou girando.

As pessoas continuaram sorrindo, fazendo planos, comemorando aniversários, começando novos amores. Enquanto isso, dentro de mim, o relógio parou exatamente no instante em que você deixou de caminhar ao meu lado.

E talvez essa seja a parte mais difícil de explicar.

Porque ninguém vê.

Ninguém percebe que existe uma guerra acontecendo dentro de alguém que sorri por educação.

Há cento e sessenta e quatro dias eu converso com a saudade como quem conversa com uma velha amiga. Ela senta ao meu lado durante o café, dirige comigo pelas ruas da cidade e deita ao meu lado todas as noites. Ela conhece o som da sua risada melhor do que eu gostaria. Conhece o perfume que ficou guardado na memória. Conhece até o jeito como você pronunciava o meu nome.

E eu continuo deixando que ela fique.

Porque, de algum jeito estranho, sentir saudade de você ainda é a forma mais bonita que encontrei de continuar perto.

Dizem que o amor deveria diminuir com o tempo.

Mas o tempo foi injusto comigo.

Ele não apagou você.

Ao contrário.

Ele tirou a pressa, levou o orgulho, silenciou a raiva e deixou apenas aquilo que era verdadeiro. Hoje eu enxergo você com uma clareza que antes eu não tinha. Percebo a delicadeza dos seus gestos, a paciência que teve comigo tantas vezes, o amor que demonstrava até nas coisas mais simples.

Hoje entendo o quanto você foi extraordinária.

E talvez eu tenha aprendido isso tarde demais.

Carrego comigo o peso dos erros que cometi. Não porque desejo viver preso ao passado, mas porque reconheço que algumas pessoas entram na nossa vida para nos transformar. Você me transformou.

Depois que você foi embora, eu cresci.

Aprendi a ouvir mais.

Aprendi que o amor precisa ser cuidado enquanto existe.

Aprendi que palavras não ditas se tornam fantasmas.

Aprendi que um abraço adiado pode nunca mais acontecer.

E de todas essas lições, a mais dolorosa foi descobrir que amadurecer sem você não era o futuro que eu imaginava.

Porque, quando penso na vida daqui a dez anos, ainda é você quem aparece.

Quando imagino uma casa, vejo você abrindo as janelas pela manhã.

Quando penso em viagens, imagino sua mão procurando a minha.

Quando sonho com filhos correndo pela sala, é o seu sorriso que eu vejo refletido neles.

Você continua vivendo em todos os futuros que o meu coração insiste em construir.

Talvez isso seja amor.

Ou talvez seja apenas a incapacidade de aceitar que algumas histórias terminam antes do coração estar pronto.

Hoje passei por um lugar onde fomos felizes.

Sorri por um segundo.

Logo depois chorei.

É curioso como um simples endereço consegue guardar uma vida inteira.

Às vezes acho que você ainda mora em cada esquina da cidade.

Outras vezes tenho certeza de que é você quem mora dentro de mim.

E então chega a noite.

Ah... a noite.

Ela sempre sabe onde machucar.

Olho para a lua e lembro de você.

Não importa quantas vezes isso aconteça.

Sempre parece a primeira.

Há algo nela que me aproxima daquilo que perdi.

Como se o céu tivesse decidido guardar todas as conversas que nunca mais tivemos.

Fico imaginando se, em algum lugar, você também levanta os olhos e encontra essa mesma lua.

Se por um breve instante o meu nome atravessa seus pensamentos.

Se existe um segundo sequer em que você também sente falta.

Talvez eu nunca saiba.

E talvez essa dúvida seja outra forma de saudade.

Não escrevo tudo isso esperando que você volte.

O amor não deveria ser uma corrente.

Escrevo porque preciso dar um destino ao que ainda transborda dentro de mim.

Porque existem sentimentos que, se não forem colocados em palavras, acabam sufocando quem os carrega.

Você foi o amor mais bonito que a vida me apresentou.

E continua sendo.

Mesmo distante.

Mesmo em silêncio.

Mesmo sem saber.

Se algum dia perguntarem qual foi a maior prova de amor que vivi, não responderei falando sobre os dias felizes.

Direi que foi continuar desejando a sua felicidade, mesmo quando ela já não incluía a minha presença.

Porque amar também é isso.

É aceitar a ausência sem deixar que o carinho desapareça.

É aprender a conviver com um vazio que ninguém mais consegue preencher.

É olhar para frente enquanto uma parte do coração insiste em olhar para trás.

Hoje são cento e sessenta e quatro dias sem você.

E, por mais que eu tenha aprendido a caminhar, a sorrir e a seguir em frente, existe uma verdade da qual não consigo escapar.

Ainda amo você.

Talvez amanhã doa um pouco menos.

Talvez daqui a um ano eu consiga lembrar sem chorar.

Ou talvez existam amores que nunca deixam de existir.

Eles apenas aprendem a viver em silêncio.

E, se for esse o nosso destino, espero que você nunca duvide de uma única coisa.

Em algum lugar deste mundo, existe alguém que continua agradecendo todos os dias por ter cruzado o seu caminho.

Alguém que, mesmo depois de cento e sessenta e quatro dias, ainda encontra você em cada oração, em cada pôr do sol, em cada canção... e em cada batida do próprio coração.

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